Quem tem medo da promiscuidade, promiscuidade, promiscuidade

…Quem tem medo da promiscuidade?


 

Hoje, 23 de setembro de 2016, dia internacional da visibilidade ou do orgulho bissexual, venho tratar de uma questão que parece ser importante para todas e todos que compõe essa organização social. Questão esta que, por algum motivo, está colada à experiências específicas, em especial à vivência da bissexualidade.

Para começar, vamos à definição formal da palavra promiscuidade, que não se afasta muito daquela empregada nas conversas informais e presente no psiquismo de uma pessoa comum – ou mesmo no de uma pessoa intelectualizada:

 


promiscuidade. (u-i). [De promíscuo + –(i)dade.] S. f. Qualidade de promíscuo; mistura desordenada e confusa.

promíscuo. [Do lat. promiscuu.] Adj. 1. Agregado sem ordem nem distinção; misturado, confuso, indistinto: “O outro [prédio], em cujo primeiro andar mora o ricaço, alberga no segundo, em montão promíscuo e doloroso, meia dúzia de famílias.” (Armindo Rodrigues, A Vida perto de Nós, p. 169.) 2. E. Ling. Obsol. V. epiceno3. Bras. Diz-se de pessoa que se entrega sexualmente com facilidade.


 

A definição acima, do Novo Aurélio Séc. XXI de 1999, não parece tão ultrapassada. A partir dele, podemos entender que a promiscuidade está ligada a uma “entrega sexual fácil” e a uma “mistura desordenada e confusa”.

Curiosamente, a promiscuidade é sempre muito ligada à identidade e à experiência bissexual. Curiosamente porque esse comportamento, que parece tão horrível para os ideias da sociedade em que vivemos, pode ser encontrados com facilidade em espaços e grupos de pessoas que nada tem a ver com a vivência da bissexualidade.

Vejamos, por exemplo, a experiência tradicional “masculina” da sexualidade. Quantos homens (cuja heterossexualidade nunca foi colocada em questão) que já fizeram e que fazem parte de nossas vidas adotaram e ou adotam, orgulhosamente, um comportamento promíscuo? “Entregando-se” ou buscando ativamente se entregar sexualmente a mulheres diversas? A um número infindável de mulheres?

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A música “Mulheres”, interpretada por Martinho da Vila, e a beleza que se pode encontrar na promiscuidade – desde que venha de um eu-lírico homem!

Esse comportamento, inclusive, é algo fortemente encorajado a ser adotado pelos homens cis (aqueles que já nasceram sendo considerados homens, que nasceram com um pintinho) , desde meninos, como forma de estímulo social ao cultivo daquilo que se entende por “masculinidade”. E não se trata de promiscuidade?

Vamos agora estender um pouco mais o nosso horizonte de análise. Pensemos em homens, mas pensemos também em mulheres. Pensemos em relacionamentos heterossexuais. Não é comum, não é socialmente aceitável, que homens e mulheres (homens sempre mais, claro!), quando mais fragilizados, em especial pelo término difícil de um relacionamento, se permitam viver essa dor “se entregando mais facilmente” a pessoas para fazer sexo, como forma de fuga da dor ocasionada pelo término? E então? Não é promiscuidade?

Agora, alarguemos um pouco mais ainda nosso horizonte de análise. Desprezando-se, provisoriamente, o sexo/gênero, a orientação sexual, as amarras sociais que sempre se impõe mais a determinados grupos (as mulheres) do que a outros (os homens), em uma sociedade em que o sexo é tão supervalorizado, quem pode dizer que em nenhum momento da vida “se entregou sexualmente com mais facilidade” e que jamais irá fazê-lo?

Entretanto, sempre que trazemos a bissexualidade para a discussão, o que aparece é um medo, um pavor incomensurável da vivência e da identidade bissexual, como se ali estivesse encarnada essa coisa horrível que é a promiscuidade – e como se só ali ela pudesse ser encontrada. Qual a origem desse fenômeno?

É bastante conhecida a leitura de Freud acerca do funcionamento do ego mediante aquilo que desperta prazer e aquilo que desperta desprazer: a tendência é trazer para dentro de “nós”, introjetar, aquilo que nos desperta prazer; e deslocar “para fora de nós”, projetar, aquilo que desperta desprazer. Obviamente, o que desperta prazer e o que desperta desprazer estão, de alguma forma, ligados ao que é ou não aceito e valorizado pela sociedade. Assim, a tendência seria projetar em alguém (que não sou eu) tudo aquilo que eu (e a sociedade) considero (amos) ruim. Daí, a facilidade em localizar nas pessoas bissexuais toda a promiscuidade do mundo!

Na medida em que o ego é auto-erótico, não necessita do mundo externo, mas, em conseqüência das experiências sofridas pelos instintos de autopreservação, ele adquire objetos daquele mundo, e, apesar de tudo, não pode evitar sentir como desagradáveis, por algum tempo, estímulos instintuais internos. Sob o domínio do princípio de prazer ocorre agora um desenvolvimento ulterior no ego. Na medida em que os objetos que lhe são apresentados constituem fontes de prazer, ele os toma para si próprio, os ‘introjeta’ (…); e, por outro lado, expele o que quer que dentro de si mesmo se torne uma causa de desprazer (Freud, 2006/1915, p. 140-141).

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[Fonte desconhecida]

Mas… Deslocando a análise do campo da subjetividade e retornando ao campo do social, a localização de toda a promiscuidade do mundo! na identidade e na vivência bissexual tem alguns agravantes, como a retirada da humanidade das pessoas bissexuais; a patologização de bissexuais, ainda que informal; e o afastamento ou isolamento das pessoas bissexuais. 

Muitas vezes, as pessoas usam como forma de nos afrontar, de nos violentar – a nós, bissexuais – a ideia corrente e excessivamente difundida de que as pessoas bissexuais (e principalmente as mulheres bissexuais, claro!) são a imagem nítida da promiscuidade. Para essas pessoas, nós não passaríamos de pessoas que só pensam – 24 horas por dia, 7 dias por semana – em fazer sexo, nunca ficando satisfeitas ou satisfeitos com a parceria sexual de uma mulher ou de um homem. Essa imagem nos aproxima da imagem que se tem dos animais e nos transforma em seres que não são, efetivamente, “pessoas”.

erick-alvesSeríamos então seres incapazes de nos envolver amorosamente com qualquer pessoa. Incapazes de estabelecer relacionamentos verdadeiros, legítimos, respeitáveis. Essa noção nos transforma, então, em coisas que podem ser usadas, se se quiser, mas que não são dignas de respeito, que não merecem investimento afetivo – de ninguém! É o caso do convite clássico feito a mulheres: “Você é bi? Então vamos fazer ménage, né?”; ou de falas como “Vocês são vetores de doença!” e “Você, mulher bi, não passa de um depósito de porra!”

Toda essa violência, que nos desumaniza, que nos fere, que nos mata (!), é apenas uma das infindáveis formas de manifestação da bifobia e está articulada com a noção repetida e repetida (até que se torne verdade?) de que a bissexualidade não existe. E, portanto, pessoas bissexuais não existem. Ora… Se bissexuais não existem, como eu poderia me ver, nesse caso, como uma pessoa que violenta outra (pessoa)?

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A projeção de toda a promiscuidade do mundo! nas pessoas bissexuais também acarreta na patologização da bissexualidade, ainda que de maneira informal. Para mim, está claro que há níveis de promiscuidade que podem ser considerados preocupantes do ponto de vista da saúde de quem a vivencia. Se a pessoa não consegue viver, viver a vida (digamos assim) porque só pensa em fazer sexo, em procurar sexo; se ela se permite reiteradamente ser um mero objeto de uso do outro, então cabe aqui atenção. Mas, perceba, a ideia não seria julgar essa pessoa como uma pessoa ruim ou apreendê-la como uma simples coisa indigna de atenção. Trata-se, na verdade, de perceber que talvez essa pessoa seja alguém que sofre e que precisa de ajuda. De ajuda, não de julgamento, repare. E talvez nem seja da sua ajuda, repare também.

Mas… Em determinados graus – e na maioria deles, a promiscuidade não oferece nenhum risco de sofrimento para a pessoa promíscua nem para o outro que se relaciona com ela, não passando então toda essa crítica de um julgamento moralista e, muitas vezes, hipócrita. Ora… Se uma mulher adulta ou um homem adulto está se encontrando sexualmente com uma maior frequência com pessoas adultas sem machucá-las, sem se machucar – cuidando de si e cuidando do outro, que mal há? E se isso for uma fase pela qual a pessoa está passando? Quem pode saber do que se trata, realmente? Sobretudo, a quem interessa isso? E mais: por que um comportamento que deveria sempre estar presente nos homens, que é encorajado desde a sua mais tenra infância, deveria ser reiteradamente erradicado nas mulheres?

Socialmente, tudo isso acarreta no isolamento forçado das pessoas bissexuais. Por isso é tão difícil sair do armário bissexual, talvez por isso seja tão difícil se dizer bi. Ora… Quem quer ser vista ou visto como o absoluto mal do mundo? Quem quer ser tratada, tratado, como uma coisa não humana, uma coisa sem sentimentos? Quem quer ser tomada, tomado, por um vetor de doença; lida como um mero depósito de porra? Quem quer ser vista ou visto como alguém que não tem dignidade suficiente para ser amada ou amado pelo outro? Você. Gostaria?

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Fonte desconhecida.

É muita violência! E ainda há quem diga que a bifobia não existe – ou que, se existe, pelo menos não é estrutural. Ora… Como ela poderia não ser estrutural se ela se manifesta todo o tempo? Se ela contribui para a maneira como apreendemos – ou deveríamos apreender este mundo?  Se ela colabora tanto para que tudo permaneça como está? “Tiramos a promiscuidade, essa coisa horrível, de nós mesmos e jogamos nos bissexuais, tá tudo certo! Continuamos limpos, respeitáveis, puros! Esses bissexuais nem existem, mesmo! Eles não são nada!” – é como se se dissessem.

Admitamos que a promiscuidade é algo que pertence a este mundo. Ao meu e ao seu mundo também. Admitamos que ela está aí à nossa volta, fora e dentro de nós, personificada ou não. Quanto de promiscuidade há aí? Você sabe? Quais são os seus valores a esse respeito? Você os tem colocado em prática? Eu não carrego comigo toda a promiscuidade do mundo! E você? Carrega?

Será que alguém carrega?

Que possamos, aos poucos, construir um novo mundo em que seja possível reconhecer diferenças – na forma de promiscuidade, de valores, de identidades, de experiências de vida, etc. – sem, contudo, precisar menosprezar o outro. Sigamos!

 

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Tradução livre: “Bissexual e, ainda assim, não estou a fim de você.” ;P

Referências:
Ferreira, A. B. D. H. (1999). Novo Aurélio Séc. XXI: O dicionário da língua portuguesa  (3. ed). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
Freud, S. (2006/1915). O instinto e suas vicissitudes. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas, vol. XIV. Op. Cit.

papel

 

papel

nosso afeto imaterial já não tem mais legitimidade

nossa coabitação já não tem mais a mesma concretude

nossos sentimentos agora estão enterrados em direitos

aparente mente

 

a atualidade pede festas de comemoração

pede ternos e vestidos de noiva

pede convites de casamento

exige novos encaixamentos coloridos em rosa e azul

com gosto de docinhos e salgadinhos às voltas de um bolo fértil

estério

 

é o papel

que nos torna prontas pra criar nossos filhos

aqueles que pedimos e os que não

mulheres, homens ou não

agora sim podemos dar futuro ao mundo

confortavelmente instaladas em caixas de veludo

ou de papelão

 

entretanto

nosso frenesi ficou inaudível

nosso choro e nosso riso confinados em sorrisos tímidos

apreendidos em grandes porções de fé

comportados em sinais caligráficos tão bonitos

ou por linhas retas brancas estreitas de classe média

polidora de conflitos

 

pois é

os caixotes e encaixamentos, revestidos

transformaram nossos afetos

em acordos de papel

 

 

Hoje aconteceu de novo: Sobre a cultura do estupro

Hoje aconteceu de novo.

Estava na rua fazendo qualquer coisa quando um amigo passou por mim, mas foi como se ele fosse invisível. Obviamente, isso o magoou porque minha atitude o fez se sentir sem existência. O olhar do outro pousado no nosso é tão importante para nos confirmar…! Não é mesmo?

Mais tarde, tentando brincar com o que aconteceu, ele se queixou comigo: Nossa, passei pertinho de você e você nem tchum!

Felizmente, eu sabia bem dizer do por que aquilo tinha acontecido – para mim mesma e para o meu amigo. Apesar de insegura sobre como ele receberia minha explicação, decidi ser sincera e dizer do que, se fato, se tratava. Era um grande risco, pensei. Mas decidi dizer. Talvez contribuísse também para a sua formação política, bem como para uma reflexão diária menos machista. Certamente contribuiria para o fortalecimento da nossa amizade, pensei.

Explico:

Desculpa, eu não queria te ignorar, não. Mas é que eu ando assim na rua, mais focada no que tenho pra fazer, menos atenta a quem passa por mim, especialmente se é homem. Porque são muitos olhares de homens na rua; e se você olha nos olhos de um homem desconhecido na rua, com muita frequência ele já acha que você está a fim dele.

Ele responde:

Nossa Senhora…! Quê isso, hein? Então você é tão olhada, tão desejada assim? Que beleza, hein? hahaha!

Ah… Como deve ser bom ser homem em alguns momentos. Doce ignorância. Não, não é bom, não. Explico a ele que não é bom ser olhada como um objeto pronto a ser consumido o tempo todo, desde a infância.

Esse olhar que não cessa, que nos torna meros objetos, menos ou quase nada humanas, também nos anula. Porém, de uma forma muito mais violenta do que a anulação que a ausência do meu olhar provocou nele.

Bem, você é homem, pensei. Gosto do meu amigo. Gosto muito. Mas meu sadismo se alegrou um pouco que ele tenha vivido pelo menos aquele ligeiro momento de se ressentir porque o olhar de alguém não se voltou pra ele. E, quem sabe, talvez poder trabalhar em cima disso. Porque eu sei que ele também olha assim para as mulheres. Eu sei.

A explicação um pouco mais aprofundada o deixou sem palavras. Agora, quando isso acontece de novo, ele já não demonstra ressentimento. Eu sei que ele se ressente, mas não demonstra. Também não faz mais piada. Não toca mais no assunto. Ele tem o privilégio de poder, sem prejuízo pessoal, simplesmente não pensar nisso.

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Marcha das Flores em Brasília em 29/05/2016. Revista AzMina.

***

Outra vez eu vi meu outro amigo. Esperando o sinal de pedestre abrir para mim no Centro de Belo Horizonte, eu vi um homem sem camisa do outro lado da rua. Como não enxergo bem de longe, fiquei na dúvida se era mesmo ele. Arrisquei e olhei para ele, como que cumprimentando, pensando literalmente: “se não for ele, eu tô fudida!”. Esse amigo é mais ligado aos movimentos sociais de esquerda e tem muito mais contato com as discussões feministas. O que me permitiu comentar com ele sobre o que pensei antes de encontrá-lo:

Nossa, eu te vi assim de longe e pensei: “se não for ele, eu tô fudida!”, risos.

Ele não entendeu que o meu receio estava ligado a uma questão de gênero, pensou que era uma questão de padrões de raça e classe, já que, para a sua consciência, era para desafiar esses padrões que ele estava sem camisa. Expliquei rapidamente. Ele respondeu com um “ah, tá” mudando de assunto de um jeito que me deixou na dúvida sobre se ele entendeu ou não.

***

Outra vez ainda foi o meu melhor amigo que eu não vi passar por mim na rua. Deixa eu dar destaque para isso:


E u   n ã o   v i   p a s s a r   p o r   m i m   o   m e u   m e l h o r   a m i g o .


Podia ter sido o meu namorado, por que não?

Quando isso acontece, fico chateada comigo mesma. Afinal, nós, mulheres, fomos e somos educadas para cuidar do outro. De todos os outros, aliás.

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“Dor”. De Dani Acioli.

Mas isso se deu hoje em minha subjetividade mesmo tendo decidido dar hoje um desconto maior maior a mim mesma porque, afinal, foi ontem que soubemos da adolescente que foi estuprada por mais de 30 homens e que foi filmada, compartilhada na internet depois de violentada, além de ser instantaneamente culpada pela violência que lhe impuseram. Hoje, não: vi nas redes sociais muitas mulheres dizendo isso a si mesmas quando assediadas; ainda tentando elaborar o que aconteceu com aquela jovem e, por extensão, com elas mesmas. Foi o mesmo que disse a mim ao notar que eu tinha ignorado completamente a existência de alguém de quem gosto, com quem me importo: Hoje, não. Hoje eu não vou fritar tanto pelo modo como eu “reajo” à violência. Hoje eu vou “me dar um desconto”.

Graças à minha experiência pessoal de mulher nascida, crescida e vivendo em uma cultura sexista, machista, misógina; de mulher feminista constantemente pensando e repensando estratégias de transformação social e colocando-as em prática, eu compreendo muito bem por que isso acontece assim – comigo.

Então, sabendo de pessoas – homens e mulheres – que duvidam da cultura do estupro, considerando essa noção um exagero das feministas, achei válido usar a minha experiência pessoal para tentar contribuir para a elucidação necessária disso que considero ser uma marca na nossa cultura: o estupro sendo concebido não como uma violência, mas como algo que os homens teriam licença de impor às mulheres – e meninas.

 

A infância

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Luli/Ponte Jornalismo

Esta é uma parte crucial para esta comunicação: a infância. Eu sei que evito hoje, adulta, olhar nos olhos dos homens que encontro na rua, entre outros motivos, também por causa da experiência de assédio que tive na infância. Na infância.

Você tem, sei lá, seus 6, 7 anos de idade e começa a perceber olhares de homens muito, muito mais velhos que você – olhares que você sequer compreende. Quando está com o seu pai e os amigos dele, eles começam a brincar com você dizendo que querem namorar você, casar com você… Perguntam ao seu pai se ele deixa isso acontecer. Você não entende. Por que eles estão brincando assim? Que coisa chata!, lembro que eu me perguntava. Nunca encontrava resposta.

Tem também aquele vizinho que compra sacos e sacos de balas para distribuir para as crianças. E que gosta muito que sentemos no colo dele. Por que ele sempre convida pra sentar no seu colo? Parecia que ele gostava muito daquilo. Eu não entendia. Apenas achava muito estranho. As crianças à minha volta também pareciam não entender muito bem. Algumas mães olhavam com maus olhos, outras não pareciam ver nada demais. Mas ali havia um enigma pra mim. Entendi somente num dia que o tal vizinho conseguiu me levar para o quarto de casal da sua casa e me colocou na cama dele. Saí correndo, assim que pude. Ali entendi que não era boa coisa o que ele queria.


Apresentação113322070_1748066468749950_4478686329278424378_nAh, mas depois de entendido partes daquele enigma, tinha também os olhares e as “cantadas” que eu recebia na rua de homens tão velhos quanto aquele meu vizinho, bem como de alguns adolescentes. Era uma experiência tão ruim que eu evitava ao máximo sair de casa. Tentava comprar mais pão do que precisava para não ter que voltar à padaria tão cedo. Ia crescendo e acumulando míseras quantias de dinheiro que me permitiam comprar um doce, um chocolate, que eu desejava muito comer. Mas fazia de tudo para não ter que sair. Morria de vontade de comer o tal doce. Comprava quando já estava na rua pra não ter que sair de novo. Eu não entendia nada sobre por que eu tinha tanto pavor de sair de casa sozinha. Até que eu vi o mesmo acontecer com a minha irmã mais nova na medida em que ela crescia…

Me lembro que já naquela época eu me via confrontada com a tirania da beleza, tão familiar para as mulheres e meninas. Eu tinha que ser bonita para ter algum valor como gente. Então, se saía, precisava me arrumar para tal. Se eu era assediada, então eu me sentia alguém, apesar de ser tão incômodo. Se não, então eu podia vivenciar o conforto de não ser notada, mas ao mesmo tempo a dor de não ser ninguém – porque, afinal, mulheres e meninas não são ninguém se não notadas pelos homens. Eu era apenas uma criança quando já vivia a tirania da beleza tão intensamente.

 

A adolescência

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Flora Negri. Marcha das Vadias de Recife. 2016.

Então você chega à pré-adolescência e à adolescência. A tirania da beleza fica ainda mais potente, enquanto o assédio vai ficando cada vez mais violento. Coisas como: Nossa, que princesinha, hein? vão se transformando em Nossa, que gostosa…!; aquele som irritantemente repetitivo que dizia algo como Ai, que tesão! [sssssssssss]; ou frases como Ai, que vontade de fazer isso com você!; Nossa, vou fazer tal coisa com você… E por aí vai.

Quando não são adolescentes e homens mais velhos os que te assediam na rua, é aquele pirralho que deve ter aprendido com o pai que a sua masculinidade em construção será fortalecida se ele tratar as mulheres como uma coisa que ele também tem o direito de usar como quiser. Como responder a isso?

Mas tem também aquele dia em que você está dentro do ônibus cheio pensando na luta que a vida lhe impôs em trabalhar e estudar tão arduamente para fugir do destino que traçaram para você (o de casar e ter filhos, obviamente) quando alguém atrás de você descaradamente aperta a sua bunda. Você jamais vai conseguir identificar quem foi.


Dou o grito ou fico quieta, fingindo que não aconteceu nada?
, me lembro que era esse o dilema. Jamais vou descobrir quem é. Se der o grito vão me chamar de histérica e louca e eu ainda vou ter que suportar o olhar desses homens e dessas mulheres que estão aqui tão perto de mim.

Decido descer do ônibus, no meio do meu caminho. Pagar por mais uma passagem para ter pelo menos o direito de chorar como nunca antes sentada no meio fio pensando em como apenas “parecia” que tínhamos avançado, quando não. As mulheres ainda são tratadas como na Idade-Média. Como se não fôssemos gente. Ou como se fôssemos no máximo uma coisa de alguém – sendo esse alguém SEMPRE um homem.

 

Todo dia. O tempo todo.

13266046_1117528721636847_6881851228012508522_nAgora, vivendo minha vida adulta, todo santo dia vejo apenas se repetir – ou se desenvolver – o drama que começou lá na infância. Às vezes vejo na minha própria vida: um beijo forçado na boate… Um cara que, de carro, me segue à noite… Às vezes vejo na vida das outras mulheres ou de outras meninas, como aconteceu com o mais recente estupro coletivo e com tantos outros dos quais sabemos todos os dias.

Mas, como se não bastasse, a cultura do estupro não é feita só do assédio sistemático que vivenciamos desde a infância e que nos oferece pouquíssimas possibilidades de reação, prendendo-nos em ideais tirânicos de beleza que parecem nos valorizar em vez de nos oprimir; que parecem nos permitir reagir, quando não (quem quer reagir – reagir! – à violência e ainda ser tachada de louca? de histérica? de descontrolada?).

Como se não bastasse, a cultura engendra constantes mensagens enviadas aos homens lhes dizendo que é permitido violentar mulheres (e outros grupos de sujeitos, como travestis e transexuais, gays, qualquer pessoa que ocupe lugares marginais ou subalternos nessa sociedade). Sobretudo, que é desejável fazê-lo. Assim, é possível confirmar a tão idealizada soberania masculina. Assim, é possível demonstrar poder. Muito poder.
E assim, homens encontram espaço para violentar sem temer qualquer tipo de punição. Nem punição jurídica, muito menos punição moral. Eles sabem que, ironicamente, as mulheres é que serão culpadas pela violência que eles impuseram a elas. E o seu ato será justificado, justificado, até que não seja mais preciso fazê-lo; até que o ato seja valorizado ao ponde de ser ostentado, como foi feito por alguns dos mais de 30 que estupraram a adolescente de 16 anos; ou até mesmo que o ato nem exista mais… se dissolvendo no ar da cultura machista e misógina.

 

Mas voltando ao que acontece comigo…

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P.nitas*

Eu sempre fico muito chateada quando eu não vejo, na rua, um homem que faz parte do meu círculo de relacionamentos. Porque sabemos da importância que o olhar tem para o contato humano na nossa organização social e subjetiva.

O olhar é sobretudo reconhecimento da existência do outro. Desde as nossas origens, o olhar é importante demais até mesmo para que possamos, um dia, nos reconhecer como um eu de maneira minimamente coesa, integrada. O olhar do outro adulto é parte importantíssima no processo de desenvolvimento psíquico do bebê que permitirá que um dia ele se reconheça como um eu. Como humano. Como gente.

Olhar para o outro, para a outra, – olhar com os olhos, mas também com a atenção – significa também cuidar desse outro e dessa outra. Significa, em última análise, reconhecer que esse outro e essa outra são sujeitos. Sujeitos de direito e de desejo. E é por isso que sinto tanto quando meu olhar exclui esses homens que compõe minha rede de relacionamentos.

Entretanto, ao mesmo tempo o olhar (de novo, o olhar com os olhos, mas também o olhar com a atenção) é tão poderoso que pode esfacelar esse nosso eu tão duramente construído, tornando-nos meros objetos de desejo do outro enquanto nós mesmas, nós mesmos, não temos direitos – que dirá desejo. Porque somos transformadas e transformados em coisa. É assim que nos transforma a nós, mulheres e meninas, a nossa cultura – uma cultura de estupro. Porque educa os homens e meninos para nos olharem como coisas. O tempo todo. E coisas não têm direitos. Também não têm desejo.

É por entender que o pessoal é político que me arrisco a expor parte da minha experiência ligada à cultura do estupro. E, consequentemente, sofrer pessoal e profissionalmente as consequências de tal exposição. Meu objetivo de tentar elucidar um pouco mais esse processo para quem ainda não o enxergou muito bem (as feministas tem se empenhado bastante nisso, cada uma à sua maneira; obrigada, mulheres!), buscando contribuir para que cada pessoa – homens, mas também mulheres – possa agir ou continuar agindo para que possamos, finalmente, colocar fim a essa cultura que não faz mais do que violentar as mulheres.

Se eu pudesse – se eu tivesse, sempre, doses suficientes de abertura, de paciência e de tempo, eu contaria tudo isso aos homens que compõe a minha rede de relacionamentos e que são, eventualmente, ignorados por mim. Talvez isso pudesse realmente contribuir para uma postura deles menos machista, menos sexista, menos violenta diante de nós, mulheres e meninas, que fazemos ou que não fazemos parte do círculo afetivo deles. Inclusive, isso é mesmo necessário ser feito, já que esses homens não viveram desde a infância até agora doses tão grandes e frequentes de coisificação e portanto não estão ininterruptamente do lado de quem sabe que pode, a qualquer momento, ser coisificadaanulada, estuprada porque a cultura – e por que não dizer?: o Estado – permite(m). Mas vocês devem concordar comigo que há limites de disponibilidade para educar o outro – especialmente quando esse outro se utiliza do poder que lhe deram para ser utilizado sobre você.

Cabe a cada homens que esteja “do lado certo” – ou seja, do lado dos e das que condenam o estupro em qualquer circunstância, assim como condenam a própria cultura do estupro – abrir mão desse privilégio (palavra que aqui soa HEDIONDAMENTE imprópria, mas não encontro outra), combatê-lo, junto com os outros homens, até que ele seja absolutamente extinto. Os homens, vale lembrar, são absolutamente responsáveis não só pelas suas atitudes, como também pela manutenção da cultura de estupro. É preciso, da parte deles, mais esforço, mais vontade de mudar – a si mesmo, além dos outros.

 

Inevitavelmente, devo continuar não reconhecendo homens conhecidos que passam por mim na rua. Uma pena. Mas quem sabe se estes e outros se esforçarem mais para mudar essa realidade que me faz reagir assim à violência (e que faz cada mulher, cada menina, reagir à sua maneira), nós, mulheres e meninas, não precisemos mais encontrar ameaças tão grandes nos homens ao nosso redor?

 

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